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Comida: a música que abre o primeiro disco de Marisa Monte

Marisa chegou com tudo em seu disco de estréia.
Marisa chegou com tudo em seu disco de estréia.

"Comida", uma das canções mais emblemáticas dos Titãs e da música brasileira, é uma música que continua fazendo perguntas difíceis.

Você tem fome de quê?

Você tem sede de quê?

A letra nos leva para um lugar que vai muito além da necessidade de comer. Existe uma fome por outras coisas: diversão, cultura, educação, relações sociais, prazer. Queremos e esperamos mais do mundo contemporâneo.

E talvez seja justamente por isso que essa música tenha atravessado tanto tempo.

Em 1989, ela apareceu na voz de Marisa Monte, logo na abertura de seu primeiro álbum, MM.

E é aí que esse disco começa a ficar especialmente interessante.


Marisa Monte começa ao vivo

Ter uma estreia fonográfica construída a partir de uma gravação ao vivo foi uma escolha bastante ousada para Marisa Monte.

MM nasceu de apresentações realizadas no Rio de Janeiro e São Paulo e chegou ao público como uma espécie de cartão de visitas da cantora.

Mas não é um disco que tenta simplesmente apresentar uma nova voz.

O repertório já mostra uma artista com referências muito amplas.

Tem "Comida", dos Titãs.

Tem "Bem Que Se Quis", versão de "E Po' Che Fa'", de Pino Daniele, com adaptação de Nelson Motta, música que se tornou um dos grandes sucessos da carreira de Marisa.

Tem "Chocolate", do bom e velho Tim Maia.

Tem a versão rasgada de "Ando Meio Desligado", dos Mutantes — banda que Marisa já declarou considerar uma espécie de bandeirante do rock brasileiro.

E tem a deliciosa "Xote das Meninas", de Luiz Gonzaga e Zé Dantas.

É um repertório eclético.

E talvez essa seja uma das coisas mais interessantes do disco.


Um disco de referências

Marisa Monte não chega em MM tentando se encaixar em uma única definição.

O disco passeia por diferentes momentos e linguagens da música brasileira sem parecer uma coleção montada para provar alguma coisa.

É justamente aí que "Comida" funciona tão bem como porta de entrada.

A música fala sobre aquilo que queremos além do básico.

E MM parece fazer isso também, só que através do repertório.

Não basta cantar.

Tem que escolher o que cantar.

Tem que saber de onde vem cada música.

Tem que misturar referências.

Tem que encontrar uma maneira própria de transformar tudo isso em uma apresentação.

Marisa estava começando ali.

Mas não parecia estar começando do zero.

 Marisa Monte no período do lançamento de MM
 Marisa Monte no período do lançamento de MM

"MM" e a primeira Marisa Monte

É interessante voltar a esse disco hoje porque muita coisa que depois se tornaria característica da carreira de Marisa Monte já aparece ali.

A escolha cuidadosa do repertório.

O trânsito entre diferentes gêneros.

A aproximação entre tradição e música contemporânea.

E, principalmente, uma cantora que parecia entender que interpretar uma música também é uma maneira de dizer de onde você vem.

Talvez seja por isso que MM continue sendo um disco tão gostoso de revisitar.

Você começa com "Comida".

Depois vem "Bem Que Se Quis".

Passa por Tim Maia, Mutantes, Luiz Gonzaga e outros caminhos.

E quando percebe, aquele disco de estreia já contou uma pequena história da música brasileira.



Um disco que merece voltar para a vitrola

MM não precisa ser colocado em um pedestal para continuar interessante.

Ele funciona melhor quando colocado para tocar.

A gravação ao vivo deixa o disco próximo, humano.

E o repertório mostra uma Marisa Monte que já chegava cercada de referências, curiosidade e personalidade.

Talvez seja essa a melhor maneira de voltar à pergunta de "Comida".

Você tem fome de quê?

Para quem gosta de música, algumas respostas são fáceis.

Mais música.

Mais discos.

Mais histórias.

E talvez seja justamente por isso que alguns LPs continuam voltando para a vitrola.

MM 1989
MM 1989

Veja esse e outros discos da Marisa Monte em nosso site:



 
 
 

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