A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado (1970): o disco que marcou a virada dos Mutantes.
- avozdovinil

- 25 de fev.
- 2 min de leitura

A frase que entrou para a história do rock brasileiro
“Venha ver sua filha nua na cama com meus filhos!”
Foi assim que Dona Clarisse, mãe de Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, chamou Dona Romilda, mãe de Rita Lee, ao flagrar a banda fotografando a contracapa do LP A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado, lançado em 1970.
A cena era típica do humor anárquico dos Mutantes: Rita, Sérgio e Arnaldo na cama, Dinho Leme em pé no canto usando uniforme nazista, café servido, tudo encenado na casa dos pais. Não era choque gratuito. Era deboche, era provocação, era ironia consciente.
A contracapa virou documento cultural. Um retrato da irreverência que marcou o rock brasileiro no auge do tropicalismo.
A capa e a simbologia do Inferno de Dante
Se a contracapa escancara o humor interno da banda, a capa segue por outro caminho. A arte utiliza uma ilustração do Inferno, de Dante Alighieri, feita por Gustave Doré.
A escolha reforça a dimensão simbólica do disco. O título dialoga com a literatura clássica enquanto a música aponta para um momento de transição criativa. Erudição e psicodelia dividem o mesmo espaço.
Nada ali é aleatório. Há intenção estética.
A mudança sonora dos Mutantes
Mais do que imagem forte, A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado representa uma mudança clara na postura musical da banda.
O som aponta para um rock mais direto, mais psicodélico, menos preso ao tropicalismo que permeava os dois primeiros álbuns. A experimentação continua, mas agora com direção mais definida.
Logo na faixa de abertura, “Ando Meio Desligado”, as guitarras distorcidas e o clima lisérgico empurram a banda definitivamente para o rock, sem abandonar o humor característico.
Em “Meu Refrigerador Não Funciona”, o órgão elétrico se expande e a voz de Rita Lee surge mais livre, evocando uma energia que dialoga com Janis Joplin e antecipa caminhos que ela exploraria em carreira solo.
“Quem Tem Medo de Brincar de Amor?” traz ganchos simples e memoráveis.“Desculpe, Babe” apresenta uma melodia direta, que se fixa sem esforço.
A nova formação e o amadurecimento instrumental
O disco também marca mudanças importantes na formação. A entrada de Liminha no baixo altera a dinâmica interna da banda. Antes, Arnaldo acumulava a função. Agora, ele assume definitivamente os teclados, expandindo a textura sonora com camadas mais densas e criativas.
O baixo passa a ter presença mais firme e marcada, enquanto os teclados criam ambientes que não se repetiriam da mesma forma em trabalhos posteriores.
A oficialização de Dinho Leme na bateria também transforma o grupo. Ele adiciona o balanço necessário e atua como elemento estabilizador em meio aos egos juvenis que começavam a se tensionar.
Experimentação com propósito
Este álbum não é experimentação abstrata.
É experimentação com direção.
A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado consolida os Mutantes como uma banda que vai além do tropicalismo e assume definitivamente sua identidade no rock psicodélico brasileiro.
É o momento em que irreverência, erudição e maturidade musical encontram equilíbrio — ainda que por pouco tempo.

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